Bolinha Colorida

Viví Gäspar
Ela entrou no templo do saber para colorir sua mente. Mas aos poucos viu que não havia tanto espaço assim para suas cores. O oceano multicor da sua mente fértil era grande demais para caber no espaço limitado da figura presa na lousa.
Palavras-Chave: educação, desenho, criatividade
Fios do Cotidiano

Juliana esfregou os olhos repetidas vezes antes de se levantar. Sono? Que nada! Eram seis da manhã e a menina já estava com a cabeça a mil por hora. Seu coraçãozinho de pouco mais de dois anos e meio pulsava acelerado, parecendo anunciar o que estavam por vir. Ela cambaleou até o quarto dos pais ainda com o rosto rosado marcado pelos lençóis e os cabelos em desalinho. Não sossegou enquanto não se viu com a roupinha azul e branca que ficara examinando por mais vários dias, com tanto zelo que deixaria com ciúmes até sua boneca favorita. Finalmente, aquele monumento gigantesco estava diante dela, pronto para ser explorado. Não era nenhuma obra de arte ou a Torre Eiffel  que estava à sua frente.  Era apenas uma  tradicional escola de educação infantil. E aquele era seu primeiro dia de aula!  Ela ficou encantada com todas aquelas crianças brincando, correndo de um lado para outro. Foi logo recebida por uma “tia” simpática e levada para uma sala com mais uma meia dúzia de crianças.

Naquele dia, ela e os coleguinhas se dedicavam às artes rabiscacionais com bastões mágicos ( quem não souber do que eu estou falando é só dar uma folha de papel e duas ou mais cores de giz-de-cera para uma criança e ver o que acontece. Em poucos segundos, e pronto, lá está: a mais pura expressão de uma visão de mundo particular, ou seja, um monte de bolinhas coloridas). Talvez cada uma daquelas bolinhas representasse uma pessoa. Ou um objeto. Ou uma sensação. Quem sabe?! Era assim que, mesmo sem precisar saber ou pensar em nada, Juliana colocava no papel sua visão sobre o mundo. Não tinha, como os adultos, a grande tendência de buscar uma aproximação com a realidade tal qual a vimos com nossos olhos físicos.

Mas isso um dia mudou quando a tia colocou uma figura bonitinha na lousa e pediu para as crianças fazerem um desenho dela. Era como se dissesse: “ei, crianças, quem fizer a melhor cópia vai ganhar uma estrelinha! Juliana nem se quer olhava para a lousa, apenas para o papel em branco à sua frente. Estava tão longe que assustou-se ao ouvir seu nome na voz da tia: Juliana, nunca vai conseguir fazer se não olhar para a lousa!  Ei, Pedro, onde já se viu um sol azul? Ah, você sim, Fernandinho, está fazendo direitinho como está na lousa: um sol amarelo, redondo, um menininho da grossura de um palito de dente com os pés entortados, e uma casinha do tipo que não se vê desde o século passado. Muito bem!”. Parecia que na tela azul e branca da tia passasse a seguinte mensagem: “O ministério da educação ultrapassada informa: a criatividade é prejudicial ao sistema de reprodução e alienação do indivíduo! Pode transformar em uma pessoa feliz!”.

Bem, Juliana não sabia explicar que não olhava para a lousa, porque estava olhando para dentro de si mesma, dando-se um tempo para buscar a sensação de como vê uma casa, ou uma determinada pessoa, ou o sol, para então expressar. O mais fantástico era que ela não tinha consciência disso e expressava-se com tanta pureza que não precisava pensar. Pena que a gente cresce, aprende a pensar e esquece de sentir, de ver o mundo simples, como tão bem fazíamos quando criança. Aprendemos a desenhar casas e prédios e não sabemos mais desenhar uma pequena e singela bolinha colorida.

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