Era ainda menina quando o sonho a visitou.
Vestia um collant cor-de-rosa, saia que voava, sapatilha da mesma cor.
O deslizar dos pés traçando desenhos no chão,
Os braços no alto, os pés firmes na ponta, alheios a dor.
Como se tudo fosse leve, suave, um afago no coração.
A alma entoa cada nota da canção, o corpo todo respira,
Enquanto os pés flutuam, enquanto a saia gira.
Mas era tudo um sonho de bailarina.
Isso não é para você, acorda, menina!
O mundo inteiro dizendo que não, não é hora
Talvez um dia, estuda, vai para a escola,
Mesmo que a alma encolha, sem escolha.
Trabalha a mente, não importa o que sente.
Prende nesta cadeira o corpo que quer voar!
Que espaço há para sonhos, quando tem contas para pagar!
Vê, o tempo passou! Quando você vai casar?
Esse sim é o sonho de toda mulher! Ballet? Agora é “manhê!”
Mas amores se vão, filhos crescem e a gente até esquece
De quem a gente era, antes do mundo dizer quem devemos ser.
Mas um dia o corpo sufocado de rotina, grita
“Chega!!!” E o grito desperta a pequena bailarina
Que te entrega a primeira sapatilha
E é com ela que você dá o primeiro passo.
Com ela você descobre o sonho que guardou para depois.
E vive em dobro, tudo aquilo que não foi.
E lembra exatamente o dia em que tudo começou.
Era ainda menina, quando o sonho a visitou.
Hoje, de alma leve, abraça a nova família.
E vê que não está sozinha. Voa, menina!
Pois como você há outras histórias,
Prontas para construir novas memórias,
Vivendo o seu sonho de bailarina.
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