Saudações, meu caro Cosmos
Escrevo para mandar notícias da minha incrível jornada na Terra. A frequência vibratória daqui é curiosa. Tão misteriosa quanto desconhecida, ignorada. Não se percebe ou sequer se fala sobre o pensamento que move a emoção, que desagua na atitude, que move energias, que afeta o planeta. Sério, eles acreditam mesmo que são um aglomerado de células, uma incrível arquitetura mental, e olha, de repente alguma emoção, de brinde. Encaram isso como um acessório que atrapalha de vez em quando, logo é preciso controlar. Eles adoram este verbo! A realização do povo da Terra é ter controle absoluto sobre o que podem ver e principalmente o que podem ter. E tem que ser do jeito “certo”. Mas não é o certo de cada um, é um certo que alguém disse que é certo um dia, e eles movimentam todas as forças para alcançar esse lugar vazio. Eu sei, é bizarro, mas ainda estou tentando entender.
Alguém, ou algum grupo que se achava detentor do poder (woow, eles nem sabem o que é isso, mas adoram ter!), em algum fragmento de tempo e de espaço, arbitrariamente resolveu que “isso é normal”. Qualquer coisa diferente disso é feio, errado, grotesco, fora do normal. A questão é: se este “normal” ideal é inventado, convencionado, tudo vai ser diferente. Mas eles entendem como um horizonte: é preciso chegar até lá. Obcessivamente. E isso determina o que é belo, bom, aceitável, e um nível acima do aceitável, o invejável. Eles adoram ser invejáveis. Alguns exemplos:
- Não basta ter um corpo. Tem que ter um corpo que caiba em um jeans 36. Ou que fiquem evidenciadas sob o tecido. As partes mais almofadadas do corpo são as que tem o maior valor. Eles nunca estão contentes com o que tem. São rasgados, costurados, perfurados, sofrem os mais bizarros tipos de mutilação para chegar ao que alguém determinou ser “belo”, para agradar ao outro, ao mundo. Para esconder as marcas do tempo e as cicatrizes que contam suas histórias. Acham que assim conquistarão o que desejam.
- Não basta ter uma família. Tem que ser a família do comercial de margarina. Aliás, eles projetam o ideal em telas, grandes, pequenas, mas nunca na tela mental. Eles perseguem aquilo e quando olham para as pessoas que estão ao seu lado para exercitarem o amor, respeito, base, acham que elas não são boas o suficiente.
- Não basta ser bom. Tem que ser o melhor. Em tudo. Melhor que o outro. E mostrar que é o melhor. Alguém disse que a vida é uma sequência de competições onde você tem que sair na frente, e eles acreditaram. Constroem sua jornada como se desfilassem em uma enorme passarela onde têm que atravessar e brilhar, não importa em quantas pessoas terão de pisar ou de quantas coisas o seu brilho egóico os estão impedindo de ver. Ou sentir.
- Não basta ter um amor. Tem que ser igual ao imaginado, sonhado e alimentado pelas grandes histórias de amor inventadas. Qualquer ser vivente será diferente daquilo, então jamais será bom o suficiente. Eles não se preocupam em “ser amor”, mas querem “ter” um. Porque é quase um crime “não ter” alguém. Sua própria companhia nunca é o suficiente.
- Não basta ter amigos. Tem que ter seguidores. Quanto mais gente acreditar naquela imagem construída de quem você é e como vive, melhor.
- Não basta ter um trabalho. Tem que ser um trabalho que pague mais do que o que o do outro. E o mais interessante: quando arrumam as coisas para o trabalho, não levam sua essência, sua missão de vida. Sua alegria. Sua vontade. Tudo isso fica entulhado em algum lugar secreto que é aberto no fim de semana, feriado, tempo livre. Porque todo o resto do tempo é preso em uma espiral de ilusão.
- Não basta estar em algum lugar, tem que tirar a foto e mostrar que está lá. Pelo menos que passou por lá. Rápida e superficialmente, mas aquele esmagar de tempo foi registrado. E publicado. Eles não vivem o lugar, não se lembram do cheiro das flores ou o som do riso das crianças correndo por lá. Não notaram as histórias das pessoas em suas extraordinárias vidas comuns. Não sabem de seus costumes, valores, não recordam o gosto do tempero que só tem ali! Nada disso importa, pois não caberá na selfie.
- Não basta ter filhos. Eles têm que corresponder a tudo o que foi sonhado e desejado pelos pais e pelo mundo. Tirar as melhores notas na escola, ter um comportamento exemplar, dar o beijo na bochecha cheia de pós da melhor amiga da mãe que aparece uma vez por ano. Dar risada da piada do “tio do pavê”, ter o primeiro amor, passar no vestibular, se formar, conseguir o emprego invejável, e vê-los em um bom casamento para que o ciclo se reinicie. Não importa se este não é o projeto de vida que os filhos têm, não se pode deixar de seguir a cartilha.
- Não basta seguir qualquer cartilha, tem que ser a que alguém estipulou como “normal”. Escrever a própria cartilha é quase uma aberração. Aliás, eles são criados para serem normais, não para serem felizes. Funciona assim: se você nasceu menina, tem que vestir rosa, brincar de boneca para aprender o seu destino maternal (siiiiiiiiiim, você deseja e nasceu para isso, é quase um crime pensar no contrário), passar a vida com cores no rosto para enfeitar seu sorriso, e lutando para entrar no jeans 36. Afinal você tem que conquistar o menino, que gosta de azul, brinca de bola e controla a máquina sobre rodas que dita o tamanho do seu sucesso. isso quando não acha que tudo ao seu redor é uma máquina que ele pode controlar – a menina, a família, os amigos.
- Não basta amar, tem que amar “certo”, como deve ser. Sim, a cartilha é tão bizarra que diz do que cada um deve gostar. Tudo bem para uma menina gostar de outra menina até uma certa idade. Depois, tem que gostar do menino e de tudo o que vem com ele. Tudo bem para um menino odiar a companhia de meninas. Até uma certa idade. Depois, passa a querer possuí-las. E controlá-las, afinal nasceram para isso. (sem comentários!) Eles ignoram que há tantas sexualidades quanto o número de seres viventes, e tentam enfiar um universo de possibilidades e descobertas na caixinha da heteronormatividade. Assim você nasceu, assim tem que ser. Ponto.
Querido Cosmos, eu ainda não desaprendi a enxergar a essência, mas confesso que seria muito mais fácil seguir como elas, neste padrão “normal” que parece tão lógico e confortável. Você não colocou sua criação em caixinhas apertadas onde não há espaço para a essência, certo? Como posso dizer para eles que não “temos que ser” nada, apenas “somos”, e somos todos um, sem esta separação ilusória que nos cega? Quanto tento, ganho o rótulo de louca. (Como eles adoram rótulos! Parece que não sabem se reconhecer sem isso!) Mas como tornar visível o essencial? Pela arte? Afinal, é permitido aos artistas e loucos subverterem a normalidade. Se é assim, seguirei na arte, como ser extraterreste rasgando o casulo da existência e deixando a natureza borboletar.